As Funções do Mito

Ernst Cassirer escreve em Linguagem e Mito que o mito é um “milagre do espírito.” É um modo de comunicação que se desenvolveu simultaneamente com a linguagem comum em nossos ancestrais pré-históricos. Uma de suas características específicas é que ele não se refere necessariamente a uma realidade objetiva. Pode se referir a uma realidade interna, abstrata, conceitual ou emocional (invisível). Na medida em que ele tenta descrever o que não pode ser conhecido ou nomeado de uma maneira comum, a experiência mística de Deus, ou Deuses – o mito é uma linguagem de símbolos, de metáforas, uma linguagem de correspondências em vez de referências.

Joseph Campbell, um dos principais estudiosos nos campos de religião e mitologia comparada, explica que o mito tem quatro funções básicas: a metafísica ou mística, a cosmológica, a sociológica e a pedagógica. Sua função metafísica serve para nos despertar para o mistério e o assombro da criação, para abrir nossas mentes e nossos sentidos para uma consciência da mística do “fundamento do ser”, a fonte de todos os fenômenos. Sua função cosmológica serve para descrever a “forma” do cosmos, o universo, o nosso mundo como um todo, de modo que o cosmo e tudo nele contido se tornem vívido e vivo para nós, infundido com sentido e significado; cada lugar, cada pedra, colina, pedra e flor têm seu lugar e seu significado no esquema cosmológico que o mito fornece. Sua função sociológica serve para estabelecer “a lei”, os códigos morais e éticos para as pessoas daquela cultura seguirem, os quais vão ajudar a definir aquela cultura assim como sua estrutura social prevalecente.

Sua função pedagógica serve para nos conduzir através de ritos de passagem específicos que definem os vários estágios significativos de nossas vidas, da dependência à maturidade e à velhice, e finalmente, a nossa morte, a passagem final. Os ritos de passagem levam-nos a entrar em harmonia com o “fundamento do ser” (um termo usado frequentemente por Joseph Campbell para se referir a um inominado e genérico poder místico universal) e nos permitir fazer a viagem de um estágio para o outro com uma sensação de conforto e propósito.

A experiência mística, o âmago da viagem espiritual que prevê a Deus, sempre foi uma experiência difícil de expressar. Alguns diriam que é impossível expressá-la. Outros diriam que esta é a função primária do mito – de encontrar uma maneira para comunicar qualquer visão mística adquirida na viagem: um entendimento dos mistérios que fundamentam o universo, uma valorização de suas maravilhas, o sentimento de temor ou arrebatamento sentidos. Uma vez que tais coisas não podem ser transmitidas por meios diretos, o mito fala através de uma linguagem de metáforas, de símbolos e narrativas simbólicas que não estão vinculadas a uma realidade objetiva. Alguns acreditam que a experiência mística é o que dá à luz a linguagem metafórica, o pensamento metafórico.

Em nosso mundo ocidental pós-iluminista, temos decididamente nos voltado à ciência para nos contar como é a “forma do mundo.” Originalmente, no entanto, o mito exerceu essa função, explicando a história cultural, a religião, a estrutura de classe, a origem e até mesmo a origem das características geográficas na paisagem circundante. O mito descreve a forma do mundo, e infunde cada parte desse mundo com sentido e significado. E apesar de um conto mítico pode parecer literalmente falso para nós hoje, ele já foi considerado verdadeiro, e ainda expressa uma verdade metafórica. Todos os mitos são verdadeiros no sentido metafórico de acordo com Joseph Campbell.

Campbell explica que a função sociológica do mito serve para apoiar e validar uma determinada ordem social. O mito vai deixar claro quem está no comando, qual o código de ética adequado, quais serão os rituais institucionais. O problema é que estes códigos são fixos, como a ordem natural, são eternos, não estão sujeitos a alterações. Se os tempos mudam, como eles têm mudado nos vários milênios, não há recurso. Nossos mitos, segundo Campbell, estão seriamente desatualizados.

Novos tempos exigem novos mitos, e como o nosso tempo está mudando freneticamente, nosso poder mental mitificador não está acompanhando. Como resultado disso, estamos praticamente sem mitos. Campbell acreditava que nos tempos modernos, temos necessidade de um mito para lidar com o advento da “máquina”. A máquina como elemento mítico pode significar as nossas ferramentas, a nossa tecnologia ou até mesmo o “Estado moderno” (os nossos governos). Eles têm tanta importância em nossas vidas agora que precisamos de uma história para explicar o seu “destino”. Será que as máquinas vão nos esmagar ou nos salvar? É a tecnologia o nosso salvador ou nossa perdição? Onde está o seu lugar na ordem social? Qual é a sua razão de ser? Será que vamos ser dominados por ela ou vamos dominá-la?

Esta é a área em que Campbell sentia que precisamos expandir muito mais do que temos hoje. Esse é o aspecto do mito que nos ensina a atravessar e viver em todas as diferentes fases das nossas vidas. Nossos mitos (nossas religiões) nos dão rituais para viver, ritos de passagem para realizar. Nós aprendemos como olhar para o mundo e a nós mesmos, desde o nascimento até a morte. Como ele sabia que todos os mitos são verdadeiros, Campbell acreditava que eles podem nos ensinar algumas lições importantes sobre como viver.

Para resumir: o Mito é a tentativa da humanidade de compreender a razão e o propósito da existência.

Falando numa linguagem de metáforas e símbolos, ele cria mundos e seres vivos que, embora não se refiram diretamente ao mundo comum ao nosso redor, fornecem respostas para as nossas questões fundamentais sobre a verdadeira natureza do mundo que nos rodeia. Se você acredita em mitos ou não, você provavelmente irá concordar que o espetáculo que eles criaram, a sua linguagem inesquecível de imagens poderosas e evocativas, acendeu o nosso imaginário coletivo por milênios. Como Campbell explica, o mito é a “pátria das Musas.” “Ele inspira as artes, a música, a poesia. Ver a vida como um poema, ver-se participando nesse poema é o que mito faz por nós”.

(tradução minha do original)

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